“Todo namoro começa com um beijinho”:
As grandes decisões de Estado não nascem em laboratórios assépticos, mas no calor de impasses e perdas de paciência monumentais. O que o cidadão médio vê na tela do celular é apenas o resultado final de um jogo de xadrez bruto e humano nos bastidores do poder. Entender como o Pix e o auxílio emergencial moldaram o Brasil exige olhar para além dos decretos e focar nas vontades políticas que os aceleraram.
Embora os estudos técnicos do sistema de pagamentos tenham germinado em 2016, sob Michel Temer, a política ignora plantas baixas; ela reverencia quem entrega a obra pronta. Na arena pública, a narrativa da vontade política costuma atropelar a autoria intelectual, pois, para o eleitorado, a entrega é a única verdade que importa.
"Começou com o Temer o estudo do Pix. Agora, por que que evoluiu no meu governo? Porque tem vontade de fazer mais rápido."
A pandemia de COVID-19 foi o catalisador brutal que empurrou o "Brasil Invisível" para a era digital em tempo recorde. Ao pagar o auxílio emergencial para 68 milhões de pessoas, o governo descobriu um exército de 40 milhões de brasileiros que tinham contas, mas as evitavam por taxas abusivas. Eram vendedores de bolo e água no sinal que, pela primeira vez, foram bancarizados pela força da necessidade.
Sobre a vigilância estatal e novas taxações, Bolsonaro utiliza a metáfora do namoro para decifrar a estratégia da equipe econômica de Lula e Fernando Haddad. Segundo ele, o monitoramento de dados é o "beijinho" inicial; ninguém envia rosas ou monitora transações bilionárias se não tiver a intenção de "casar" com o dinheiro do contribuinte via imposto.
"Todo grande namoro começa com beijinho. Não vai taxar nada que é 0,01 hoje... daqui a pouco volta a CPMF."
A governança moderna hoje é pautada pela comunicação viral, onde um vídeo do deputado Nicolas Ferreira pode paralisar a Receita Federal. Com uma marca impressionante de 300 milhões de visualizações — número que o próprio Bolsonaro vê com ceticismo, sugerindo o uso de bots devido à escala — o fenômeno digital funcionou como um "golpe de sorte" que abortou planos de controle fiscal sobre o Pix.
No debate sobre a redução da idade mínima para a presidência, a tese defendida é a do repertório de vida contra o vigor juvenil. Bolsonaro é provocativo ao avaliar sua própria trajetória, afirmando que "10 anos atrás eu era muito mais bosta do que sou hoje". Para ele, nem a popularidade de ícones como Gusttavo Lima substitui a maturidade necessária para enfrentar as pressões do Congresso Nacional.
A ascensão de Bolsonaro não foi um projeto calculado de décadas, mas um surto de impaciência política dentro da Câmara dos Deputados. O marco zero foi o discurso na Academia de Agulhas Negras (Resende), em novembro de 2014, quando se declarou candidato pela primeira vez. Se as grandes rupturas nascem da saturação, fica a dúvida: o que a atual exaustão do sistema está gestando para o futuro?
Reviewed by Hilton Ramos
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março 15, 2026
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